terça-feira, 18 de novembro de 2014

It's the climb

O mundo dava sempre voltas e parava no mesmo lugar para os dois. Ou talvez nem rodasse tanto, continuasse sempre no mesmo lugar (e eles é que não percebessem). 

Isso não vinha mais ao caso.

O importante de tudo é que estavam sempre juntos, as vezes como namorados, as vezes como amantes e sempre como amigos. Esse era o grande barato desses últimos anos.

Brigavam. E como brigavam! Um queria comandar a vida do outro mais do que podiam. Como é sempre de se esperar, a Menina, naturalmente mais amadurecida,  teimava em brigar com esse menino. Seus óculos vermelhos vez ou outra soltavam fumaças. E a cada briga a jura de que “dessa vez é sério e pra sempre”. A jura durava menos de meio dia.

Uma única vez, faz mais de um ano, numa dessas incansáveis brigas por nada e pra nada, a Menina teve a certeza do quão sério tinha sido e soube que nunca mais seriam os mesmos um com o outro. Passaram mais de 12 horas sem um apito se quer no celular. O dele também não apitara. Ela não queria dar o braço a torcer, afinal nunca estava errada.

Até que em sua bolsa vibrou uma nova mensagem. As batidas doloridas e certas dentro do seu peito davam o recado. Era ele... e ele – já conhecendo a sua Menina – fingia que nada tinha acontecido, levantando a mão com uma vareta e um pedaço de pano branco encardido na ponta.

E viviam nessa luta de amor e amizade. Achando que se ficassem se escondendo um do outro, o mundo não os perceberia.

O romance nunca deixou de existir, nem mesmo quando os seus corações estavam ocupados se dedicando a outras almas. E o respeito por essas outras sempre presente. Eram pessoas do bem e compartilhavam no coração a mesma certeza de que o que viviam (com os outros) era passageiro.


DesENCONTRO.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

[Emília e a dona Morte]

A Menina pede desculpas por ausentar-se dessas páginas por longo espaço. Vontade e inspirações não lhe faltam para que aqui retorne, mas sobra-lhe a falta de tempo.

O texto que escolheu para reproduzir em seu blog num esperado pedido de perdão, é um diálogo entre a Emília de Lobato e o Visconde de Sabugosa, de mesmo pai.

Pedindo licença, o texto



Pica-pau
- A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. Quem pára de piscar chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos - viver é isso. É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais.

[...] A vida das gentes neste mundo, Senhor Sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos, pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela última vez e morre.
- E depois que morre? - perguntou o Visconde.
- Depois que morre vira hipótese. É ou não é?____________________________________________________________________________
Monteiro Lobato - excerto de memórias da Emília (1936)

sexta-feira, 25 de julho de 2014

[Levem-me para Pasárgada!]

A Menina andava refletindo muito sobre as coisas, sobre a vida. Estava por aí até um pouco desiludida com o que via ao seu redor: uma quantidade sem fim de humanos e seus próprios umbigos. Achava isso triste, tão triste.

Para ela a vida já era  tão rápida, com tudo e todos tão cheios de pressa, acelerando e dificultando ainda mais as coisas num processo diário (e chatíssimo por sinal) que não conseguia entender o porque de tudo.

E o companheirismo, o ajudar por ajudar, o fazer o bem sem olhar a quem??? Aonde está? Aonde foi parar?

Teriam jeito? Eu ela? Teria também? E teria razão de estar assim... se sentindo assim?

Uma quantidade enorme de extremismos. Se é extremo em tudo no HOJE. No bem. No mal. Não existe o meio. E até onde a Menina conseguia enxergar, o meio era o equilíbrio de tudo. "Se estivermos no meio a gangorra ficará reta". A gangorra ficar reta era ruim assim? Nem muito de um, nem pouco de outro.

No meio não significava em cima do muro, uma "não tomadora de partidos".

Mas diz! E porque que ela tinha que escolher um lado? E porque que não podia olhar e querer o lado bom dos dois? Porque não podia ficar no meio da gangorra?

Tudo chato demais. Revoltante demais. Sacal demais!

Aonde aperta o botão pra descer? Ela quer ir embora ....



quinta-feira, 19 de junho de 2014

[meninas e mulheres]

Hoje a Menina vai apenas publicar um texto que recebeu de sua grande amiga a Menina dos cabelos cor de sol. Segundo ela, se enquadravam em cada palavra, sem tirar e nem por.
A Menina dos óculos vermelhos discordava apenas no quesito má-cozinha, andava se aventurando e gostando desse terreno.

Vamos ao texto. Uma menina jornalista que o escreveu. Seu nome é Ruth Manus. Sabe bem falar sobre as meninas...



Fonte: Estadão, Blog Ruth Manus. http://blogs.estadao.com.br/ruth-manus/a-incrivel-geracao-de-mulheres-que-foi-criada-para-ser-tudo-o-que-um-homem-nao-quer/

A incrível geração de mulheres que foi criada para ser tudo o que um homem NÃO quer

                                                       RUTH MANUS                                


Às vezes me flagro imaginando um homem hipotético que descreva assim a mulher dos seus sonhos:
“Ela tem que trabalhar e estudar muito, ter uma caixa de e-mails sempre lotada. Os pés devem ter calos e bolhas porque ela anda muito com sapatos de salto, pra lá e pra cá.
Ela deve ser independente e fazer o que ela bem entende com o próprio salário: comprar uma bolsa cara, doar para um projeto social, fazer uma viagem sozinha pelo leste europeu. Precisa dirigir bem e entender de imposto de renda.
Cozinhar? Não precisa! Tem um certo charme em errar até no arroz. Não precisa ser sarada, porque não dá tempo de fazer tudo o que ela faz e malhar.
Mas acima de tudo: ela tem que ser segura de si e não querer depender de mim, nem de ninguém.”
Pois é. Ainda não ouvi esse discurso de nenhum homem. Nem mesmo parte dele. Vai ver que é por isso que estou solteira aqui, na luta.
O fato é que eu venho pensando nisso. Na incrível dissonância entre a criação que nós, meninas e jovens mulheres, recebemos e a expectativa da maioria dos meninos, jovens homens,  homens e velhos homens.
O que nossos pais esperam de nós? O que nós esperamos de nós? E o que eles esperam de nós?
Somos a geração que foi criada para ganhar o mundo. Incentivadas a estudar, trabalhar, viajar e, acima de tudo, construir a nossa independência. Os poucos bolos que fiz na vida nunca fizeram os olhos da minha mãe brilhar como as provas com notas 10. Os dias em que me arrumei de forma impecável para sair nunca estamparam no rosto do meu pai um sorriso orgulhoso como o que ele deu quando entrei no mestrado. Quando resolvi fazer um breve curso de noções de gastronomia meus pais acharam bacana. Mas quando resolvi fazer um breve curso de língua e civilização francesa na Sorbonne eles inflaram o peito como pombos.
Não tivemos aula de corte e costura. Não aprendemos a rechear um lagarto. Não nos chamaram pra trocar fralda de um priminho. Não nos explicaram a diferença entre alvejante e água sanitária. Exatamente como aconteceu com os meninos da nossa geração.
Mas nos ensinaram esportes. Nos fizeram aprender inglês. Aprender a dirigir. Aprender a construir um bom currículo. A trabalhar sem medo e a investir nosso dinheiro.  Exatamente como aconteceu com os meninos da nossa geração.
Mas, escuta, alguém  lembrou de avisar os tais meninos que nós seríamos assim? Que nós disputaríamos as vagas de emprego com eles? Que nós iríamos querer jantar fora, ao invés de preparar o jantar? Que nós iríamos gostar de cerveja, whisky, futebol e UFC? Que a gente não ia ter saco pra ficar dando muita satisfação? Que nós seríamos criadas para encontrar a felicidade na liberdade e o pavor na submissão?
Aí, a gente, com nossa camisa social que amassou no fim do dia, nossa bolsa pesada, celular apitando os 26 novos e-mails, amigas nos esperando para jantar, carro sem lavar, 4 reuniões marcadas para amanhã, se pergunta “que raio de cara vai me querer?”.
Talvez se eu fosse mais delicada… Não falasse palavrão. Não tivesse subordinados. Não dirigisse sozinha à noite sem medo. Talvez se eu aparentasse fragilidade. Talvez se dissesse que não me importo em lavar cuecas. Talvez…”
Mas não. Essas não somos nós. Nós queremos um companheiro, lado a lado, de igual pra igual. Muitas de nós sonham com filhos. Mas não só com eles. Nós queremos fazer um risoto. Mas vamos querer morrer se ganharmos um liquidificador de aniversário. Nós queremos contar como foi nosso dia. Mas não vamos admitir que alguém questione nossa rotina.
O fato é: quem foi educado para nos querer? Quem é seguro o bastante para amar uma mulher que voa? Quem está disposto a nos fazer querer pousar ao seu lado no fim do dia? Quem entende que deitar no seu peito é nossa forma de pedir colo? E que às vezes nós vamos precisar do seu colo e às vezes só vamos querer companhia pra um vinho? Que somos a geração da parceria e não da dependência?
E não estou aqui, num discurso inflamado, culpando os homens. Não. A culpa não é exatamente deles. É da sociedade como um todo. Da criação equivocada. Da imagem que ainda é vendida da mulher. Dos pais que criam filhas para o mundo, mas querem noras que vivam em função da família.
No fim das contas a gente não é nada do que o inconsciente coletivo espera de uma mulher. E o melhor: nem queremos ser. Que fique claro, nós não vamos andar para trás. Então vai ser essa mentalidade que vai ter que andar para frente. Nós já nos abrimos pra ganhar o mundo. Agora é o mundo tem que se virar pra ganhar a gente de volta.

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sexta-feira, 6 de junho de 2014

Terra

Aquele menino, aquele menino de outra pátria, a pátria das cores verde, branca e vermelha.
Aquele menino que repartiu o seu coração em duas partes iguais. Levou embora uma das partes com ele. Aquele menino que é modelo de perfeição, reinando absoluto entre todos aqueles que apenas tentam ser.
Aquele menino de tantas línguas, de tantas culturas e que habita em todas as partes do mundo, incluindo uma parte grande do coração da Menina. Por lá é soberano.
Aquele menino que fez a endurecida menina chorar de tristeza.
Aquele menino que fez a alegre Menina sorrir sem motivo.
Aquele menino que morou e dirigiu os seus sonhos mais reais.
Aquele menino...

Por que ele volta?
Sim, porque ele sempre volta.

A Menina apenas agradece ao universo e a redonda Terra pelos caminhos sempre retornados.


quinta-feira, 10 de abril de 2014

[A música]

A Menina dos óculos vermelhos fez um pedido sincero pro Menino que era casamenteiro:
- Menino Casamenteiro, o meu menino precisa:

a) ser um menino que segure baquetas;
b) ser um menino que não goste de fumaça;
c) ser um menino que adore correr pelas lagoas;
d) ser um menino que trabalhe com arte.

O Menino casamenteiro pensou, refletiu _ "Nossa! Como a Menina é exigente! Terei que pedir ajuda"! E então pediu ajuda para a melhor amiga da sua pedinte, a Menina que tocava tambor.

Casamenteiro: Sua amiga Menina quer um menino e esse menino tem que preencher quatro requisitos.
Tambor: Quatro??
Casamenteiro: Mas acredito que se preenchermos um já teremos como enganá-la. Ela não está em condições de tamanha exigência.
Tambor: Uhn... acho que o mais fácil pra mim serão as baquetas. O restante não tenho como ajudar.
Casamenteiro: Faça o que for possível pois já não aguento mais a Menina a me ligar diariamente.
Tambor: Farei o que estiver ao meu alcance, Casamenteiro, afinal me ajudaste com o meu que também segura baquetas.

A Menina que tocava tambor fez o que podia. Apresentou para a Menina dos óculos vermelhos, o Menino que segurava baquetas.

Que Menino lindo! A Menina dos óculos vermelhos ficara encantada. Achando que tinha preenchido apenas a letra (a) de sua lista, a Menina que tocava tambor não tinha noção que o Menino que segurava baquetas se encaixava perfeitamente em todos os outros e ainda vinha com bônus extra.

A Menina dos óculos vermelhos estava feliz. Seu Menino era apenas um menino e um menino encantador. E o melhor de tudo: suas almas eram em preto e branco e tinham no coração o mesmo time.

O Menino casamenteiro descansaria por um tempo.



quinta-feira, 3 de abril de 2014

[a droga do amor]

A Menina andava sumida. Voltava pra dizer que estava feliz e que era muito feliz – isso até que alguém lhe provasse o contrário. E que desejava acordar como acordou hoje e dormir como dormiu ontem todos os dias da sua vida.

Consequentemente trabalharia como trabalhou hoje e as coisas dariam certo (sempre!) pelo simples fato de que ELAS PRECISAM DAR CERTO.

É toda uma cadeia, um emaranhado incrível 
e quando a Menina achou a ponta do fio certo... ah! O caminho foi único: a felicidade! A Menina era toda poesia.

Quando a gente respira fundo E o coração dói. Uma dor gostosa de bem-querer, bem-estar. Quando a gente respira fundo 
E fica tonta E lembra E o sorriso vem E você só quer sorrir E multiplicar, multiplicar E multiplicar o que está sentindo”.

A Menina dos óculos vermelhos
 e o seu coração tão vermelho quanto estavam num estado de gozo constante que droga nenhuma no mundo seria capaz de lhe proporcionar.

Só a droga do amor. Ah... o amor.

[Suspiros]
[Suspiros]
[Suspiros]