O mundo dava sempre voltas e parava no mesmo lugar para os
dois. Ou talvez nem rodasse tanto, continuasse sempre no mesmo lugar (e eles é
que não percebessem).
Isso não vinha mais ao caso.
O importante de tudo é que estavam sempre juntos, as vezes
como namorados, as vezes como amantes e sempre como amigos. Esse era o grande
barato desses últimos anos.
Brigavam. E como brigavam! Um queria comandar a vida do
outro mais do que podiam. Como é sempre de se esperar, a Menina, naturalmente
mais amadurecida, teimava em brigar com
esse menino. Seus óculos vermelhos vez ou outra soltavam fumaças. E a cada
briga a jura de que “dessa vez é sério e pra sempre”. A jura durava menos de
meio dia.
Uma única vez, faz mais de um ano, numa dessas incansáveis
brigas por nada e pra nada, a Menina teve a certeza do quão sério tinha sido e
soube que nunca mais seriam os mesmos um com o outro. Passaram mais de 12 horas
sem um apito se quer no celular. O dele também não apitara. Ela não queria dar
o braço a torcer, afinal nunca estava errada.
Até que em sua bolsa vibrou uma nova mensagem. As batidas
doloridas e certas dentro do seu peito davam o recado. Era ele... e ele – já
conhecendo a sua Menina – fingia que nada tinha acontecido, levantando a mão
com uma vareta e um pedaço de pano branco encardido na ponta.
E viviam nessa luta de amor e amizade. Achando que se
ficassem se escondendo um do outro, o mundo não os perceberia.
O romance nunca deixou de existir, nem mesmo quando os seus
corações estavam ocupados se dedicando a outras almas. E o respeito por essas
outras sempre presente. Eram pessoas do bem e compartilhavam no coração a mesma
certeza de que o que viviam (com os outros) era passageiro.
