Ela só sabia que precisava fazer terapia. Até então seus analistas tinham sido a música, o livro e as páginas em branco de seu velho amigo. Como podia em tão terna idade resolver e passar por problemas de uma gente grande que não era? Abalava-se a menina dos óculos vermelhos. Abalava-se com os milhões de questionamentos e "ses" que circulavam por sua cabecinha. Mas mesmo assim poderia se considerar uma pessoa de sorte pois sabia escrever e isso muitas vezes bastava-lhe.
Era juíza de seus atos e ninguém melhor do que ela para cobrar, mandar e desmandar seus próprios pensamentos. Tinha 32 anos e ainda não sabia o que queria ser quando crescesse. Talvez estivesse na hora.
Era uma menina em idade de mulher, refugiada em terras de faz-de-contas. Apreciadora da arte em toda a sua mais remota e espontânea manifestação, desde que sadias. Cresceu regida por Vênus e talvez por isso contava com várias derrotas quando o assunto era amor. Que mal há em amar?
O coração andava quieto e ela já nem se lembrava da última vez que o havia sentido dentro do peito achando que permaneceria assim por um longo tempo. Ledo engano, chegava o carnaval.
Ah! O carnaval... festa mundana e feliz de um povo sofrido. Ela se enquadrava nesse povo mundano sofrido e ansiava por aquela época do ano como ninguém. Com suas amigas programou apostas e corridas de maiores números de beijos, não importando cor, tamanho ou beleza. Saiu na frente. Logo ao primeiro dia disparou na contagem dos beijos desconhecidos e já era apontada como a possível grande vencedora da competição carnavalesca. Até que um olhar... não um beijo, um olhar que lhe ardia a alma surgiu entre marchinhas e fantasias. São seis anos passados desse olhar e ela agora poderia lembrá-lo como se fosse ontem. Esses clichês verdadeiros de amor.

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